E
clamando, disse: Pai Abraão tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro,
que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque
estou atormentado nesta chama. Lucas 16:24
Dei para ser insano ultimamente, pois que a normalidade que cultivei por tanto
tempo, nada transformava ao redor. Cansei porque a distância entre o
discurso e a ação, comporta um congestionamento paulistano de fim
de tarde com tempo chuvoso. Dar
vez e voz aos oprimidos significa no primeiro momento, defrontar-se com lamentos
e revoltas, porque foi isso que se gerou como sub-produto da postura excludente
e elitista, que os grupos pretensamente dominantes mantiveram ao longo da história.
Não
é possível, conceber o sentimento que vai no peito daquele que assistiu
ao crescimento dos muros e o engrossamento do livro de regras, sentado na chaise
long diante da lareira sorvendo uma dose de brandy. Impossível
também, conceber a fome, discuti-la, enquanto se vasculha o armário
à procura de um digestivo para ajudar a digerir o assado servido no jantar.
É
preciso viver do lado de fora do muro, é preciso ter passado fome.
Nascemos
de um assalto, uma esquadra colonizadora, a rampa era feita da areia da praia,
as vidraças de árvores e a sociedade constituída vivia pelada.
A
fórmula se repete até hoje e as caravelas de agora, vem de todos
os lados. Tomam-se de assalto os lindos vales para construir hidrelétricas,
invadem-se as florestas para produção de tábuas. Erguem-se
muros com cerca elétrica e vigilância armada, colecionam-se livros
para deleite das traças. Se
sabidamente esse modelo que está aí que favorece alguns em detrimento
de muitos, não é mais suportável, ou bem engrossamos a fatia
dos incluídos, ou todos nos devoraremos. Ou
bem abrimos as portas dos muros, ou a patrola do nosso pífio senso de segurança,
vai derrubá-lo sobre nós. Ou bem repensamos o modelo consumista
que limita de um lado e escraviza do outro ou veremos crescer os movimentos dos
"sem". Sem
terra, sem teto, sem camisa, sem comida, sem roupa, sem dente, sem escola, sem
eira nem beira e aí teremos um país sem controle, sem respeito,
sem oportunidade. Somos
radicais ao nos considerarmos eleitos de sei lá o que e atraímos
então o radicalismo dos que sabidamente estão do lado de fora da
estrutura de progresso e oportunidade. A
hierarquia linear que nos comanda, constrói líderes e liderados,
uma hierarquia circular, colocaria a responsabilidade nas mãos de todos.
Cada cidadão fazendo sua parte. Todos tendo acesso à escola e todos
zelando dela, menos doutores e mais técnicos, nada de processos seletivos
canhestros, mas de históricos construídos desde o mais tenro banco
da escola infantil. Ensinar
sim desde a escola infantil, que somos todos humanos e com os mesmos direitos,
sejamos da etnia, religião, sexo ou opção qualquer de vida.
Que acima de tudo vem a liberdade de existirmos como indivíduos. Enquanto
nos encastelarmos egoisticamente na ilusão das conquistas pessoais, do
primeiro eu, do f...-se os perdedores, limitando os saberes, desrespeitando as
culturas e a diversidade, impondo um modelo único de perfeição,
Lázaro estará estirado ao pé do muro, catando as migalhas
do falso poderoso que haverá um dia de pedir a esse mesmo Lázaro
que molhe a ponta dos dedos para acalmar a brasa ardente que o consome. |