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sábado, 12 janeiro, 2008 19:25

Dar de beber a Lázaro

E clamando, disse: Pai Abraão tem misericórdia de mim, e manda a Lázaro, que molhe na água a ponta do seu dedo e me refresque a língua, porque estou atormentado nesta chama. Lucas 16:24

Dei para ser insano ultimamente, pois que a normalidade que cultivei por tanto tempo, nada transformava ao redor.

Cansei porque a distância entre o discurso e a ação, comporta um congestionamento paulistano de fim de tarde com tempo chuvoso.

Dar vez e voz aos oprimidos significa no primeiro momento, defrontar-se com lamentos e revoltas, porque foi isso que se gerou como sub-produto da postura excludente e elitista, que os grupos pretensamente dominantes mantiveram ao longo da história.

Não é possível, conceber o sentimento que vai no peito daquele que assistiu ao crescimento dos muros e o engrossamento do livro de regras, sentado na chaise long diante da lareira sorvendo uma dose de brandy.

Impossível também, conceber a fome, discuti-la, enquanto se vasculha o armário à procura de um digestivo para ajudar a digerir o assado servido no jantar.

É preciso viver do lado de fora do muro, é preciso ter passado fome.

Nascemos de um assalto, uma esquadra colonizadora, a rampa era feita da areia da praia, as vidraças de árvores e a sociedade constituída vivia pelada.

A fórmula se repete até hoje e as caravelas de agora, vem de todos os lados. Tomam-se de assalto os lindos vales para construir hidrelétricas, invadem-se as florestas para produção de tábuas. Erguem-se muros com cerca elétrica e vigilância armada, colecionam-se livros para deleite das traças.

Se sabidamente esse modelo que está aí que favorece alguns em detrimento de muitos, não é mais suportável, ou bem engrossamos a fatia dos incluídos, ou todos nos devoraremos.

Ou bem abrimos as portas dos muros, ou a patrola do nosso pífio senso de segurança, vai derrubá-lo sobre nós. Ou bem repensamos o modelo consumista que limita de um lado e escraviza do outro ou veremos crescer os movimentos dos "sem".

Sem terra, sem teto, sem camisa, sem comida, sem roupa, sem dente, sem escola, sem eira nem beira e aí teremos um país sem controle, sem respeito, sem oportunidade.

Somos radicais ao nos considerarmos eleitos de sei lá o que e atraímos então o radicalismo dos que sabidamente estão do lado de fora da estrutura de progresso e oportunidade.

A hierarquia linear que nos comanda, constrói líderes e liderados, uma hierarquia circular, colocaria a responsabilidade nas mãos de todos. Cada cidadão fazendo sua parte. Todos tendo acesso à escola e todos zelando dela, menos doutores e mais técnicos, nada de processos seletivos canhestros, mas de históricos construídos desde o mais tenro banco da escola infantil.

Ensinar sim desde a escola infantil, que somos todos humanos e com os mesmos direitos, sejamos da etnia, religião, sexo ou opção qualquer de vida. Que acima de tudo vem a liberdade de existirmos como indivíduos.

Enquanto nos encastelarmos egoisticamente na ilusão das conquistas pessoais, do primeiro eu, do f...-se os perdedores, limitando os saberes, desrespeitando as culturas e a diversidade, impondo um modelo único de perfeição, Lázaro estará estirado ao pé do muro, catando as migalhas do falso poderoso que haverá um dia de pedir a esse mesmo Lázaro que molhe a ponta dos dedos para acalmar a brasa ardente que o consome.

Pedro Reis é jornalista, astrólogo e eventual cozinheiro
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