Havia
me proposto a ignorar solenemente a tão decantada iminência de confronto
bélico. Em meu coração sigo firmo nesse propósito,
mas sinto também um desejo, agora incontrolável, de expressar meu
profundo descontentamento com esse estado absolutamente inconcebível, nesta
altura da nossa história. - Será que o único caminho que
o ser humano entende é o do confronto? Será que não vamos
entender que os únicos prejudicados são os povos envolvidos numa
situação esdrúxula como essa? Que o saldo invariavelmente
são crianças, idosos, mulheres e homens mortos, mutilados e famílias
destruídas? Que os declarantes desses confrontos anacrônicos e interesseiros,
terminam, quando vencedores, cobertos das glórias efêmeras de medalhas
e monumentos e os vencidos em algum exílio paradisíaco estratégicamente
esquecidos ao final dos confrontos? Ou são suicidados?
Pode ser que muitos ainda encontrem justificativas para essa atitude asquerosa,
hipócrita e terminantemente desnecessária. Não somos verdeiramente
capazes de conviver com as diferenças, não somos capazes sequer
de dar destino adequado ao lixo que produzimos, de preservar que seja a calçada
diante de nossas casas, talvez por isso tenhamos ainda que assistir a essas brigas
de mimados e mal educados, meninos que nunca admitiram nada adiante de seus umbigos.
Que enxergam a vida pela ótica míope do materialismo, do interesse
econômico imediato. Competidores talvez derrotados, naqueles pueris campeonatos
de cuspe ou xixi à distância, talvez derrotados pela régua
naquele outro campeonato para saber de quem era o maior. Crescem e vão
apontar seus grandes canhões e bombas. A guerra é a dificuldade
contundente da boa relação com a vida, com a plena expressão
dos talentos, ausência plena de Deus em essência, desequilíbrio
interior do masculino e do feminino, fraqueza de caráter, que até
um psicólogo recém-formado poderia identificar. Daqui para
a frente só é concebível o boicote, porque essa patetada
assassina que se desenha no horizonte, foi patrocinada por muitas vias indiretas
em inúmeros ramos de negócio, que pagam royalties que viram bombas,
aviões e navios de guerra, capacetes e armas de toda a espécie.
Aquele sanduichinho inocente, aquele refrescozinho marrom geladinho e tantos outros,
palhacinhos e ratinhos idiotas, que nós, mais idiotas ainda consumimos,
e que ajudam a patrocinar esse espetáculo dantesco inconcebível,
para um mundo que ainda tem muita fome, falta de escola, casa, saneamento básico
apenas para falar de alguns. Ninguém precisa de guerra, ninguém!
Todas as pesquisas, são contra, todas as manifestações
são contra. Como é que podemos conceber que dois sujeitos iguais
a nós, digam qual deve ser a postura de todos? Quem manda na sua casa,
você ou seu vizinho? No meu tempo de ginásio, que hoje chama
ensino médio, havia um sujeito que achava que batia em todo mundo, porque
era o máximo. A sua posição social, permitia-lhe comprar
as simpatias com doces, sorvetes e festas. Bastava que o talzinho não fosse
com a cara de alguém e já marcava uma surra na saída, sempre
assistida por seus asseclas babacas. Um dia fui escolhido como bola da
vez, encontro marcado, lá fui eu. Larguei os livros no chão. Joguei
meu excesso de peso em cima do galã quebrei-lhe três dentes e o braço
e só parei por que uns quatro ou cinco me seguraram. Sabe Deus de onde
tirei tanta fúria. Salvei a pele de muitos, porque o mocinho bravo,
nunca mais chamou ninguém para a briga e ficou um bom tempo sem poder assobiar.
Ainda por cima quis ser meu amigo. Virou moça, cheio de gentilezas.
Diferenças são tiradas olho no olho, com quem as têm;
ninguém precisa de turma quando sabe qual é seu papel na vida. Na
falta de correr para o papai, usa os tanques. Imaturos e medíocres,
todos aqueles que resolvem seus problemas pessoais, matando, vingando, difamando
ou virando a cara e fazendo beicinho. março/2003 |